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domingo, 24 de setembro de 2017

    Ambiente acadêmico e suas cobranças: Ignorando o bem-estar dos alunos.


É cada vez mais frequente vermos relatos de graduandos que desistem de seus cursos, após um árduo esforço para passar nos concorridos vestibulares, devido a alta exigência  que são submetidos. A alegria presente nos primeiros meses é substituída por frustração e problemas de saúde , podendo haver suicídios.
O ambiente dentro das faculdades , principalmente daquelas que são referências e daqueles cursos com grande concorrência, é constituído de uma rigidez curricular que não oferece oportunidades para que os discentes possam conciliar um estilo de vida saudável com a rotina dos estudos. A rotina é resumidamente caracterizada pela dedicação integral do aluno ao curso, não que isso não seja importante para que se tenha um excelente profissional no mercado de trabalho, mas o jeito como isso é estimulado não considera a saúde mental dos discentes. As grades curriculares são esquematizadas numa organização em que os alunos se veem diante de provas e trabalhos semanais, além de aulas massantes e pouco dinâmicas, nas quais torna-se difícil o aluno manter o foco e a concentração.
Ao final do dia, após o estresse e a preocupação normal do cotidiano universitário, ainda é necessário estudar de fato, ou seja, dedicar-se ao conteúdo transmitido nas aulas. Isso é necessário sim, não questiono tal empenho, apenas questiono a forma como é o ambiente que está sendo compartilhado entre os docentes e discentes. Por exemplo, ter uma vida saudável como recomenda os médicos, com a realização de atividades físicas , alimentação adequada, momentos de diversão e tempo para a resolução de problemas pessoais, é uma utopia para a grande maioria dos universitários. Vivemos uma eterna e extremamente frustrante luta contra o Tempo, na qual este é quem determina a nossa rotina, visto que a todo momento estamos pensando em como nos organizar para dar conta de todos os nossos deveres nas 24 horas do dia.
Nesse contexto, nos deparamos com situações que são prejudiciais à saúde de qualquer pessoa, mas que dificilmente vamos criticá-las, pois se não for assim como será? Alunos estudando a madrugada toda , sem dormir , ou dormindo algumas horas apenas e uso de psicoestimulantes ( sejam bebidas ou fármacos), sem contar os casos em que ocorre o uso de drogas. A longo prazo, essa rotina cria hábitos que alteram a forma de viver do estudante, tornando-os ansiosos, impacientes, com  sentimentos de culpa e exigência , pois quando estão tentando descansar os pensamentos estão nos estudos, e quando estão envolvidos com os livros acham que não estão fazendo o suficiente. Com o tempo, a capacidade de concentrar-se reduz e também passamos a ignorar a situação, pois nos conformamos que o ambiente é assim e não mudará tão cedo, e a alegria presente nos primeiros anos passa a ser projetada para que o curso tenha o seu término o mais breve possível.
Suicídos, "burnout", crises de ansiedade, distúrbios metabólicos, doenças, estresse e isolamento social são consequências graves no ambiente universitários e que são veladas pela justificativa de que o mercado de trabalho encontra-se concorrido e a excelência é a única forma de destacar-se.Talvez pela quantidade de alunos afetados por essas alterações psicológicas e mentais e pelo descaso decorrente da aceitação da situação como normal, temos essa dificuldade em falar sobre o tema e principalmente em propor soluções. Psicólogos e grupos de discussão possuem a sua valia, pois o aluno encontra-se completamente perdido e necessita de um auxílio imediato, porém isso não implica que a situação em que ele vive , ou seja, o ambiente universitário, vá ser alterado permitindo que ele tenha saúde na sua rotina. A alteração desta situação envolve mudanças na educação de forma geral, abrangendo desde a formação dos professores até a identificação das melhores formas de criação das grades curriculares, demandando esforços em nível federal.
A formação de estudantes com esse perfil psicológico certamente está relacionada com a demanda que os docentes são submetidos. O reconhecimento no ambiente acadêmico é tido por meio das pesquisas e publicações , as quais demandam tempo e dedicação, mas da mesma forma que ocorre com os discentes , muitos docentes se perdem nesse mundo. As pesquisas acadêmicas são de extrema importância para a sociedade, pois num país como o nosso as instituições de ensino tornam-se grandes laboratórios, permitindo testar e elaborar uma diversidade de temas que possuem implicações e melhorias nas nossas vidas. Entretanto, vemos situações em que os docentes se envolvem tanto com as pesquisas, que começam a produzir muito conteúdo que não possuem aplicação prática, por mais que eles relutem dizendo a sua importância. Talvez tal fato decorra da competição entre os profissionais para ver quem consegue ter mais publicações e logo mais destaque na academia, permitindo mais reconhecimento, porém este é um  ambiente isolado na sociedade, na qual uma ínfima parcela da população tem acesso, levando-me a questionar o porquê disso e tendo como resposta, ainda que simples, a exaltação do ego pessoal. Novamente, não crítico as pesquisas, apenas acho que é "fácil" estar no conforto de uma sala pesquisando e escrevendo sobre alguns assuntos de baixo impacto social e desconsiderar, alienar-se para ser mais preciso, de todo o ambiente ao redor. E nesse ponto, muitos tornam-se tão envolvidos, que , na minha opinião, perdem o compromisso com a responsabilidade enquanto professores e transmissores de informação. Um profissional nos dias de hoje deve estar atualizado com o mundo, isso quer dizer está atento sobre os fatos sociais que nos cercam, política nacional e internacional, meio ambiente e outros temas são de extrema importância para que reconheçamos nosso papel no mundo, e saibamos como agir para instruir os que convivem conosco.Entretanto vemos professores tão alienados como os alunos, fato prejudicial pois como pensar em desenvolver pesquisas de impacto na melhoria social se não sabemos as relações e interconexões presentes no nosso próprio planeta? Talvez por isso seja tão difícil estabelecer a interdisciplinariedade que alguns acadêmicos vêm buscando nos últimos anos.
A discussão do assunto é o primeiro passo para a identificação dos discentes e docentes que se encontram nessa situação, pois o assunto é amplamente velado nas universidades ao ponto de ser visto como normal. A tentativa de estabelecer vínculos mais próximos entre alunos e professores também pode auxiliar, assim como medidas internas para modificar o modo de ensinar, considerando a alteração desse modo obsoleto que estamos acostumados, para isso faz-se necessários oferecer cursos pedagógicos aos docentes ( a academia ignora que professores são antes de mais nada pedagogos), além disso estimular e acompanhar os estudantes, buscando interagir e auxiliar no aprendizado de forma eficiente e não  por meio da cobrança realizada através de métodos avaliativos pouco efetivos.

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