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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

LONGE DE CASA, PERTO DE SI: Quando a vida te convida ao autoconhecimento.

Muitos de nós já passamos pela angustiante e difícil tarefa de dizer adeus aos nossos pais para vivermos as nossas próprias vidas, ou seja, seguirmos os nossos sonhos, buscar o "impossível" e se aventurar pelo mundo que há dentro de nós mesmos. Uma das primeiras reações quando essa transição ocorre é sentirmos medo e acharmos que não conseguiremos sobreviver sem o apoio e o conforto familiar. Surgem as dúvidas, os vários " e se" e a vontade momentânea de abrir mão dos nossos objetivos, mas aqueles que persistem e encaram a jornada descobrem o potencial interno que possuem para superar as adversidades da vida e com o tempo percebem que sair de casa foi uma tarefa fácil comparada com as outras que precisam vencer diariamente.
Após várias quedas doloridas, vamos amadurecendo e aprendendo a resistir aos solavancos que a vida proporciona e percebendo que eles são importantes para que possamos nos lapidar e aperfeiçoar sentimentos e personalidade. Há dias que são intermináveis, parece até que Deus está querendo brincar com a gente, as frustrações e problemas não acabam assim como as soluções se escondem entre os nossos pensamentos nervosos e desequilibrados.
Os anos vão nos moldando e vamos tomando consciência de alguns sentimentos que são custosos de aceitar. Percebemos que independente de amigos, somos sozinhos, ou seja, apenas você tem a resposta para os seus problemas,porém essa tomada de consciência pode levar tempo. Depois de algum tempo convivendo com outras pessoas você entende que o que é bom para elas tem grande chance de não ser para tu e que construir o seu "self" é de fundamental importância para o progresso pessoal. Este momento envolve a percepção de um vazio existencial , no qual somente você tem as ferramentas para o seu autoentendimento. Um possível caminho para essa busca é aproveitar os momentos sozinhos para indagar-se sobre si mesmo, refletir sobre as atitudes que toma e principalmente pensar na forma como age, buscando entender  o porquê faz uma tarefa de um jeito se na verdade queria fazer de outra.
Em alguns momentos, principalmente naqueles de profundo desespero, achamos que nossa família dará o suporte que buscamos, ou melhor, a resposta que não temos, mas, infelizmente, eles não têm esse poder. Recebemos apoio, seja emocional, afetivo ou psicológico, e injeções de ânimo, que são bons fortalecedores mentais , contudo, meu caro, é você quem passa a ser responsável pelas rédeas da vida. Ainda sobre família, percebemos algumas situações de forma diferente à medida que o tempo longe de casa aumenta,por exemplo, notamos que explicar os problemas que estamos passando não tem tanta importância quanto a nossa presença no lar, fazendo com que aprendamos a ser mais sensatos na hora de conversar e contar como estamos vivendo. Nossos pais envelhecem e aquilo que é um problema pra você para eles é apenas um detalhe para eles pois  já passaram por isso diversas vezes e sabem como solucioná-los, todavia o momento temporal foi diferente e as condições também, sendo assim, você escuta o que eles têm para te aconselhar, aproveita algumas palavras e usá-as como ferramentas para formar a sua própria resolução. Voltar para casa implica também em perceber que eles não são eternos, os problemas de saúde decorrente da idade aparecem e com isso alguns assuntos que até então pareciam distante da sua realidade passam a rondar seus pensamentos e você passa a ter certas responsabilidades que serão fundamentais no momento em que eles ...
Em meio a todo esse ambiente, você valoriza os momentos de alegria e reunião familiar, com uma cabeça totalmente diferente de quando era criança. As refeições ganham um tempero especial, as tardes de conversa passam a ser reflexivas e questionadoras e a hora de dormir um momento de agradecer pelo dia que teve. Ver os nossos queridos companheiros animais torna-se verdadeira alegria, receber aquela lambida na cara, por mais nojenta que seja para alguns, é muito satisfatório, além de toda a bagunça que eles fazem por nós estarmos presentes. Alguns percebem que apesar disso tudo, o ambiente familiar não traz o mesmo sentimento de pertencimento da mesma forma que era antigamente, no fundo notamos que já estamos remando sozinhos, desenvolvendo nossa própria vida. Em meio a isso, chega a hora de dizer até logo e voltar pra realidade.
Frustrações e expectativas são sentimentos que devemos evitar porque eles causam dores prolongadas. Até formarmos uma mente consistente, deparamos com várias situações em que tornamos um simples fato na maior notícia que poderíamos ter recebido ou criamos as ilusões amorosas, as quais irão te destruir se você não se cuidar. Em meio a solidão que muitos se encontram quando deixam seus lares, qualquer situação ou pessoa que te faça sentir especial faz com que você passe a depositar confiança e credibilidade, sem ter um raciocínio lógico que permita distinguir as intenções, levando você a sofrer por isso.
Tomar consciência de que é importante manter a boca fechada é um conselho precioso. O tempo nos ensina que alguns amigos não são tão amigos e que dependendo do que você fala as consequências não serão tão boas. Inveja,egoísmo e arrogância estão mais presentes na sociedade do que possamos imaginar, assim como, empatia, paciência e consideração são sentimentos extremamente raros de se encontrar nos seus amigos. Todos querem falar e te mostrar que eles são sensacionais, que o problema deles sempre será maior do que o seu, de que eles são geniais, algo parecido com o poema em linha reta de Pessoa( heterônimo Álvaro de Campo). Diante  desse ambiente é que vem a percepção de que o silêncio é um amigo que nunca te trai.
Depois de tudo, acho que a vida é sim uma experiência que se aproveita sozinho, somente você com o seu eu, pois os vereditos finais dos seus caminhos é você quem dá , fato esse que o torna responsável pelas consequências. Os amigos e amores são importantes (?) desde que  não nos tornemos refém deles e para isso precisamos aperfeiçoar nosso autoconhecimento diariamente.Nos últimos anos tenho escutado uma frase que pra mim soa como um positivismo irracional : " No final tudo dá certo", questiono o que é certo para quem fala isso ou pensa dessa forma. Certo seria a situação resolver-se naturalmente e você aceitar as consequências do fato? Prefiro acreditar que "dar certo" está associado a nossa capacidade de lutar,persistir e resistir diante das adversidades e mesmo assim tornar situações difíceis em oportunidades para que elas sejam superadas, pois temos mais controle  e responsabilidade sobre nossas vidas e escolhas do que podemos imaginar.
 Viver: capacidade de desenvolver autoconhecimento para que possamos desfrutar dos bons e maus momentos que encontramos no decorrer da existência.


 


domingo, 24 de setembro de 2017

    Ambiente acadêmico e suas cobranças: Ignorando o bem-estar dos alunos.


É cada vez mais frequente vermos relatos de graduandos que desistem de seus cursos, após um árduo esforço para passar nos concorridos vestibulares, devido a alta exigência  que são submetidos. A alegria presente nos primeiros meses é substituída por frustração e problemas de saúde , podendo haver suicídios.
O ambiente dentro das faculdades , principalmente daquelas que são referências e daqueles cursos com grande concorrência, é constituído de uma rigidez curricular que não oferece oportunidades para que os discentes possam conciliar um estilo de vida saudável com a rotina dos estudos. A rotina é resumidamente caracterizada pela dedicação integral do aluno ao curso, não que isso não seja importante para que se tenha um excelente profissional no mercado de trabalho, mas o jeito como isso é estimulado não considera a saúde mental dos discentes. As grades curriculares são esquematizadas numa organização em que os alunos se veem diante de provas e trabalhos semanais, além de aulas massantes e pouco dinâmicas, nas quais torna-se difícil o aluno manter o foco e a concentração.
Ao final do dia, após o estresse e a preocupação normal do cotidiano universitário, ainda é necessário estudar de fato, ou seja, dedicar-se ao conteúdo transmitido nas aulas. Isso é necessário sim, não questiono tal empenho, apenas questiono a forma como é o ambiente que está sendo compartilhado entre os docentes e discentes. Por exemplo, ter uma vida saudável como recomenda os médicos, com a realização de atividades físicas , alimentação adequada, momentos de diversão e tempo para a resolução de problemas pessoais, é uma utopia para a grande maioria dos universitários. Vivemos uma eterna e extremamente frustrante luta contra o Tempo, na qual este é quem determina a nossa rotina, visto que a todo momento estamos pensando em como nos organizar para dar conta de todos os nossos deveres nas 24 horas do dia.
Nesse contexto, nos deparamos com situações que são prejudiciais à saúde de qualquer pessoa, mas que dificilmente vamos criticá-las, pois se não for assim como será? Alunos estudando a madrugada toda , sem dormir , ou dormindo algumas horas apenas e uso de psicoestimulantes ( sejam bebidas ou fármacos), sem contar os casos em que ocorre o uso de drogas. A longo prazo, essa rotina cria hábitos que alteram a forma de viver do estudante, tornando-os ansiosos, impacientes, com  sentimentos de culpa e exigência , pois quando estão tentando descansar os pensamentos estão nos estudos, e quando estão envolvidos com os livros acham que não estão fazendo o suficiente. Com o tempo, a capacidade de concentrar-se reduz e também passamos a ignorar a situação, pois nos conformamos que o ambiente é assim e não mudará tão cedo, e a alegria presente nos primeiros anos passa a ser projetada para que o curso tenha o seu término o mais breve possível.
Suicídos, "burnout", crises de ansiedade, distúrbios metabólicos, doenças, estresse e isolamento social são consequências graves no ambiente universitários e que são veladas pela justificativa de que o mercado de trabalho encontra-se concorrido e a excelência é a única forma de destacar-se.Talvez pela quantidade de alunos afetados por essas alterações psicológicas e mentais e pelo descaso decorrente da aceitação da situação como normal, temos essa dificuldade em falar sobre o tema e principalmente em propor soluções. Psicólogos e grupos de discussão possuem a sua valia, pois o aluno encontra-se completamente perdido e necessita de um auxílio imediato, porém isso não implica que a situação em que ele vive , ou seja, o ambiente universitário, vá ser alterado permitindo que ele tenha saúde na sua rotina. A alteração desta situação envolve mudanças na educação de forma geral, abrangendo desde a formação dos professores até a identificação das melhores formas de criação das grades curriculares, demandando esforços em nível federal.
A formação de estudantes com esse perfil psicológico certamente está relacionada com a demanda que os docentes são submetidos. O reconhecimento no ambiente acadêmico é tido por meio das pesquisas e publicações , as quais demandam tempo e dedicação, mas da mesma forma que ocorre com os discentes , muitos docentes se perdem nesse mundo. As pesquisas acadêmicas são de extrema importância para a sociedade, pois num país como o nosso as instituições de ensino tornam-se grandes laboratórios, permitindo testar e elaborar uma diversidade de temas que possuem implicações e melhorias nas nossas vidas. Entretanto, vemos situações em que os docentes se envolvem tanto com as pesquisas, que começam a produzir muito conteúdo que não possuem aplicação prática, por mais que eles relutem dizendo a sua importância. Talvez tal fato decorra da competição entre os profissionais para ver quem consegue ter mais publicações e logo mais destaque na academia, permitindo mais reconhecimento, porém este é um  ambiente isolado na sociedade, na qual uma ínfima parcela da população tem acesso, levando-me a questionar o porquê disso e tendo como resposta, ainda que simples, a exaltação do ego pessoal. Novamente, não crítico as pesquisas, apenas acho que é "fácil" estar no conforto de uma sala pesquisando e escrevendo sobre alguns assuntos de baixo impacto social e desconsiderar, alienar-se para ser mais preciso, de todo o ambiente ao redor. E nesse ponto, muitos tornam-se tão envolvidos, que , na minha opinião, perdem o compromisso com a responsabilidade enquanto professores e transmissores de informação. Um profissional nos dias de hoje deve estar atualizado com o mundo, isso quer dizer está atento sobre os fatos sociais que nos cercam, política nacional e internacional, meio ambiente e outros temas são de extrema importância para que reconheçamos nosso papel no mundo, e saibamos como agir para instruir os que convivem conosco.Entretanto vemos professores tão alienados como os alunos, fato prejudicial pois como pensar em desenvolver pesquisas de impacto na melhoria social se não sabemos as relações e interconexões presentes no nosso próprio planeta? Talvez por isso seja tão difícil estabelecer a interdisciplinariedade que alguns acadêmicos vêm buscando nos últimos anos.
A discussão do assunto é o primeiro passo para a identificação dos discentes e docentes que se encontram nessa situação, pois o assunto é amplamente velado nas universidades ao ponto de ser visto como normal. A tentativa de estabelecer vínculos mais próximos entre alunos e professores também pode auxiliar, assim como medidas internas para modificar o modo de ensinar, considerando a alteração desse modo obsoleto que estamos acostumados, para isso faz-se necessários oferecer cursos pedagógicos aos docentes ( a academia ignora que professores são antes de mais nada pedagogos), além disso estimular e acompanhar os estudantes, buscando interagir e auxiliar no aprendizado de forma eficiente e não  por meio da cobrança realizada através de métodos avaliativos pouco efetivos.

sábado, 23 de setembro de 2017

O AMOR

O amor, quando se revela,Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,

Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!


Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...


*Fernando Pessoa - Poesias inéditas